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Estilista pernambucana celebra 10 anos com coleção inspirada na África e na força das raízes negras

Jessica Zarina lança “Raízes do Futuro” e fortalece marca de moda afro autoral feita com propósito, beleza e sustentabilidade

Nesta sexta-feira (25/7), data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a estilista pernambucana Jessica Zarina completa 10 anos à frente da Zarina Moda Afro, marca que nasceu dentro de casa, no Alto José Bonifácio — periferia do Recife — e hoje alcança o Brasil e o mundo com peças autorais que unem ancestralidade, identidade e inovação.

Mulher negra, comunicadora, empreendedora e criadora autodidata, Jessica viu na moda uma forma de resistência, expressão e superação. Em meio às desigualdades sociais que atravessaram sua trajetória, falar de moda preta tornou-se um caminho possível, e potente, de transformar a ausência em linguagem. 

A partir de um ateliê improvisado, começou a vender suas primeiras roupas para amigas e clientes da comunidade. Com talento, intuição e propósito, construiu uma marca sólida, com coleções autorais, processos sustentáveis e impacto direto na economia criativa local. Hoje, peças da Zarina circulam por vários estados do país e já foram enviadas para o exterior — um reflexo do alcance que sua criação conquistou ao longo da última década.

“Sou uma mulher preta, da periferia, que aprendeu a fazer da moda um jeito de ocupar espaços, de ser protagonista da minha própria história e de manter firme no meu destino. Esse caminho não foi fácil, mas trago como missão de vida. Hoje celebro 10 anos com a certeza que as raízes ancestrais me impulsionam e me sustentam”

Em 2023, Jessica realizou uma viagem que marcou para sempre sua trajetória pessoal e criativa: visitou o continente africano pela primeira vez. A ida, planejada com cuidado e emoção, foi mais do que uma jornada internacional — foi uma travessia íntima, uma volta simbólica ao berço de onde vieram os fios que atravessam sua identidade e sua estética.

Nos mercados populares, ateliês coletivos e aldeias de mulheres artesãs, ela encontrou a matéria-prima de uma nova fase: tecidos capulanas vibrantes, formas ancestrais de costura, saberes transmitidos de corpo para corpo. Mas o que mais trouxe na mala foi a sensação de pertencimento.

“Na África, entendi que o que faço aqui no Recife está ligado a algo muito maior. Eu estava ali, do outro lado do oceano, tocando um tecido, e parecia que já tinha sonhado com aquele momento. Foi como voltar para casa sem nunca ter estado lá antes. Voltei outra.”

Dessa experiência nasceu vários sonhos e um deles é a coleção 2025 “Raízes do Futuro”- um manifesto em forma de roupa. 

Com previsão de lançamento oficial em agosto, em um evento no Recife que reunirá imprensa, convidados e parceiros da marca, a coleção “Raízes do Futuro” apresenta 18 looks autorais, divididos entre roupas femininas e masculinas com forte inspiração afro-diaspórica e um olhar voltado para a sustentabilidade e a diversidade de corpos.

Entre os destaques da nova coleção estão os vestidos longos e túnicas fluídas, com caimento leve e modelagem pensada para o clima quente do verão nordestino. A linha inclui ainda kaftans e batas oversized, inspiradas nos trajes tradicionais africanos, com estampas tribais marcantes e cortes assimétricos que conferem movimento e personalidade. 

Também ganham espaço as calças amplas e peças de alfaiataria desconstruída, produzidas em tecidos naturais como linho e algodão orgânico, que aliam conforto e sofisticação. Para quem busca peças mais ajustadas, a coleção apresenta bodys e blusas com recortes estratégicos, que equilibram sensualidade, elegância e versatilidade. 

Compondo o acabamento das criações, aparecem tramas artesanais em macramê, tramas artesanais em crochè, barafunda e richelieu – técnica de bordado ancestral, confeccionado por mulheres da própria comunidade. 

A paleta de cores mistura tons terrosos, dourados, verde musgo, violeta e vermelho intenso, criando um universo visual que une o sagrado da ancestralidade à pulsação vibrante da contemporaneidade.

Os tecidos utilizados — entre eles capulanas africanas originais, fibras naturais e materiais reaproveitados — reforçam o compromisso da marca com uma moda sustentável e afetiva.

A coleção será disponibilizada por meio de vendas diretas nas redes sociais da marca e em edições limitadas em multimarcas parceiras. Os preços variam entre R$ 180 e R$ 480, com possibilidade de ajustes sob medida e encomendas personalizadas.

“Quero que cada pessoa que vista uma peça da Zarina se sinta envolvida por uma história. Nossas roupas são criadas para durar, para marcar momentos, para se tornarem parte da vida de quem veste. A moda que fazemos é feita com alma, não com pressa.”

Para Jessica, vestir-se é um ato de afirmação — pessoal, política, espiritual. Sua marca cresceu ancorada no território da periferia, mas com o olhar aberto para o mundo. E sua história é a prova de que criatividade, persistência e identidade são ingredientes poderosos na construção de um negócio com propósito.

“Não estou apenas vendendo roupa. Estou oferecendo uma experiência. Um abraço ancestral em forma de tecido. E dizer a outras mulheres como eu: a gente pode. A gente consegue. A gente já está fazendo.”

Salatiel Sícero

Jornalista por formação e assessor de imprensa.