virou Notícia

Espetáculo “Obirin-Kunhã: Dança Inflamada” encerra circulação com impacto social e cultural em Pernambuco

Projeto idealizado por Marcela Rabelo percorreu quatro cidades com apresentações gratuitas e oficinas que valorizaram a ancestralidade feminina afro-indígena, promovendo formação cultural e acesso à arte

Entre janeiro e maio de 2025, o espetáculo “Obirin-Kunhã: Dança Inflamada”, idealizado e interpretado por Marcela Rabelo, percorreu quatro municípios pernambucanos — Recife, Olinda, Bezerros e Garanhuns — e firmou-se como uma ação de profundo alcance cultural, educativo e simbólico. Ao unir dança, poesia, vídeo e ancestralidade, a montagem provocou reflexões e emocionou públicos diversos com sessões gratuitas e oficinas formativas.

“A cada apresentação, eu sentia que algo se abria — em mim, no público, no espaço. Foi um encontro com o sagrado que mora nas histórias das mulheres da nossa terra”, disse Marcela, ao fazer um balanço do projeto. A artista reafirmou que sua criação nasceu da necessidade de trazer à cena os saberes e vivências femininas afro-indígenas, muitas vezes silenciadas pelos processos coloniais.

A circulação começou nas cidades-irmãs Recife e Olinda, durante o 31º Janeiro de Grandes Espetáculos. Foram realizadas sessões em espaços emblemáticos como o Teatro Fernando Santa Cruz, o Daruê Malungo, o Teatro Arraial e a sede do Nação Pernambuco, mobilizando espectadores de diferentes idades e formações. No palco, Marcela incorporava a força de um feminino ancestral, evocando a tradição oral e homenageando o poeta França de Olinda.

“O que eu vi ali me tocou profundamente. Não era só um espetáculo, era como se estivesse vendo a história da minha avó dançada na minha frente”, relatou a professora de escola pública Maria José de Lima, que assistiu à apresentação em Olinda. “Foi lindo, forte e verdadeiro. Me fez lembrar da força das mulheres da minha família.”

Em Bezerros, no Agreste, o espetáculo integrou a programação do Festival Curta na Serra, com apresentação ao ar livre no Anfiteatro de Serra Negra, durante o pôr do sol. A paisagem natural intensificou a experiência do público, que presenciou um rito de corpo, memória e reexistência.
A última parada da circulação ocorreu em Garanhuns, no Quilombo do Castainho, onde a apresentação foi realizada na sede da Associação Quilombola, reafirmando o compromisso do projeto com os territórios de resistência e a valorização dos saberes tradicionais.

Ver uma mulher dançando aquelas histórias, ali na nossa comunidade, me deu esperança. Me lembrou que a gente também é arte, também é cultura”, disse a artesã quilombola Dona Francisca Ferreira, moradora do Castainho. “Aquela dança falou com o nosso coração.”

Além dos espetáculos, a iniciativa promoveu oficinas em Recife, Olinda e Garanhuns, com a atividade “Dança Palavra-Movimento: Recontando Histórias”. Voltadas para o público feminino, as oficinas criaram um espaço de escuta, partilha e criação, incentivando as participantes a recontarem suas trajetórias por meio do corpo e da palavra.

Foi a primeira vez que dancei contando minha própria vida”, contou a agente de saúde Maria Aparecida Gomes, participante da oficina em Garanhuns. “Achei que ia só assistir, mas quando comecei a mexer o corpo, comecei a lembrar das lutas, das alegrias… Saí me sentindo mais leve.”

Com intérprete de Libras e legendas nas projeções, o projeto também priorizou a acessibilidade. Para a equipe de produção, a ação representou um exemplo concreto do que políticas públicas de fomento à cultura podem proporcionar.

“Tudo isso só foi possível por causa do apoio do Funcultura e da parceria com pessoas e instituições que acreditaram na força do projeto”, destacou Marcela. “Mais do que uma circulação, foi um reencontro com nossas raízes.”

Ao final de cinco meses de trajetória, “Obirin-Kunhã: Dança Inflamada” confirmou-se como uma ação artística, educativa e afetiva de grande relevância, que ecoa não apenas nos palcos, mas no cotidiano das mulheres que foram tocadas por ela. O projeto deu origem a outras iniciativas, como a Mostra Obirin-Kunhã de Dança e o Corpoesia/Dança Inflamada, fortalecendo o protagonismo de mulheres negras e indígenas nas artes.

Eu nunca pensei que um espetáculo de dança pudesse me emocionar tanto. Mas chorei, me arrepiei. Era como se estivesse falando da gente”, concluiu Dona Francisca, com os olhos marejados. “A gente precisa de mais disso: mais arte que fale com o coração das mulheres.”

Salatiel Sícero

Jornalista por formação e assessor de imprensa.