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Documentário “Cantadeiras de Tracunhaém” emociona público e fortalece memória ancestral de mulheres negras na Zona da Mata de Pernambuco

Filme teve estreia ao ar livre com roda de conversa, pipoca e acessibilidade, reunindo moradores da cidade para celebrar a força do canto feminino afroindígena

Foi com emoção e grande presença do público que o curta-metragem “Cantadeiras de Tracunhaém” teve sua estreia na última quinta-feira (22), na Praça do Trabalhador, no Bairro Novo, Zona da Mata Norte de Pernambuco. A sessão gratuita teve sua estreia pública, reunindo famílias inteiras, jovens, rezadeiras, artistas e curiosos para uma noite de escuta, afeto e reconhecimento. Contou com estrutura de acessibilidade, distribuição de pipoca e uma roda de conversa com as diretoras e moradores, reunindo a comunidade em torno da valorização da memória oral e da força do canto de mulheres negras da região.

Dirigido por Silvia Ribeiro, Cintia Viana, Helena Tenderini e Amandine Goisbault, o documentário apresenta as histórias de sete mulheres negras entre 22 e 98 anos, que fazem do canto um instrumento de resistência, espiritualidade e pertencimento. A exibição gratuita foi acompanhada por pipoca, cadeiras, estrutura de acessibilidade e uma roda de conversa que emocionou o público

A gente não se vê no cinema. Ver essas mulheres da nossa terra sendo filmadas, contadas, respeitadas… foi como ver minha mãe, minha avó, minha tia na tela”, disse emocionada a professora e moradora local Ana Paula Bezerra. “Foi mais que um filme, foi uma celebração da nossa história.”

A estreia foi marcada por fortes simbolismos. O filme começa com imagens de Maria Lopes, avó de Silvia e inspiração para o projeto. Foi o desejo dela — de um dia ser reconhecida como artista — que deu origem à narrativa. Maria faleceu em abril deste ano, um dia antes de completar 77 anos, e sua memória conduz todo o fio do documentário.

Ela dizia que um dia ainda seria famosa. E ela estava certa. Hoje, a cidade inteira aplaudiu minha avó”, afirmou Silvia Ribeiro, idealizadora da obra. “Esse filme é um gesto de amor e reparação. Estamos dizendo a essas mulheres: vocês importam.”

Outra personagem que partiu antes da estreia foi Dona Chiquinha, de 98 anos — rezadeira, curandeira e fã de Carmen Miranda. Ambas permanecem vivas no filme, nos cantos que deixaram e no impacto que provocaram em quem assistiu.

As demais cantadeiras reveladas pelo curta também marcaram presença no evento, como Rogerete, mulher trans, mãe de santo e rezadeira; Helena, parteira e capoeirista; Dona Zefinha, que segue rezando por fiéis; Maria do Coco, fundadora do Coco Panela de Barro; e Fernanda, jovem mestra de maracatu.

Cada uma canta com o corpo inteiro. Canta pra curar, pra alimentar, pra viver. O que faltava era escuta — e agora a gente teve isso”, destacou Cintia Viana, uma das diretoras.

A roda de conversa após a sessão foi um momento coletivo de partilha e emoção. Moradores relataram como os cantos das protagonistas fazem parte do cotidiano da cidade e reafirmaram a importância da valorização da cultura oral local.

Eu me vi ali. Aqueles cantos acompanham nossa vida desde criança, mas ninguém tinha parado pra filmar, pra ouvir, pra dizer: isso também é arte, isso também é história”, comentou a artesã Maria de Lourdes, que levou os netos para a exibição.

O documentário foi viabilizado pela Lei Paulo Gustavo Pernambuco e contou com apoio da Secretaria de Cultura do Estado, Ministério da Cultura, Prefeitura de Tracunhaém e Secretaria Municipal de Cultura. Toda a trilha sonora foi composta e interpretada pelas próprias cantadeiras, em um processo de criação colaborativa, com roteiro construído a partir da escuta das personagens.

Com a estreia, “Cantadeiras de Tracunhaém” afirma-se como uma ação de valorização da memória afetiva e cultural de mulheres negras do interior de Pernambuco, além de abrir caminhos para novas exibições e atividades formativas nos territórios.

“Elas sempre cantaram. O que a gente fez foi escutar e registrar. Que esse filme possa ecoar para além das praças e das telas, que ele chegue onde precisa chegar: no coração das mulheres que carregam o mundo com a voz”, concluiu Silvia.

Ficha técnica
Título: Cantadeiras de Tracunhaém
Direção: Silvia Ribeiro, Cintia Viana, Helena Tenderini e Amandine Goisbault
Produção: Silvia Ribeiro
Trilha sonora: Cantadeiras de Tracunhaém
Financiamento: Lei Paulo Gustavo Pernambuco

Salatiel Sícero

Jornalista por formação e assessor de imprensa.