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Mostra Infantil leva cinema, histórias e sonhos às comunidades tradicionais da Mata Norte

Pipoca, algodão doce e curtas-metragens encantaram mais de 300 crianças que nunca haviam assistido a um filme projetado em suas comunidades

A luz do datashow acesa no fim da tarde, o improviso de uma parede branca na escola da comunidade, o silêncio atento de crianças que, pela primeira vez, viam um filme projetado diante de si. Foi com essa ambiência que a 5ª Mostra Infantil Cinemata percorreu, entre os dias 22 e 24 de maio, três comunidades rurais do município de Aliança, na Zona da Mata Norte de Pernambuco — Upatininga, Chã do Camará e Tupaoca — levando sessões gratuitas de cinema, contação de histórias e leitura sensorial para mais de 300 crianças.

A mostra é uma iniciativa do Ponto de Cultura 15 de Novembro, com apoio da Biblioteca Professora Bibi Ferreira e da Associação Reviva, viabilizada por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), com recursos do Ministério da Cultura e do Governo de Pernambuco.

Além das projeções, a ação contou com a distribuição gratuita de pipoca e algodão doce, garantindo o clima festivo e acolhedor que marcou todas as sessões. Para muitas crianças, tratou-se não apenas da primeira ida ao “cinema”, mas também da primeira vez saboreando essas guloseimas associadas ao universo lúdico.

Com uma curadoria de curtas que abordam temas como identidade, pertencimento, diversidade, meio ambiente e neurodiversidade, a mostra exibiu títulos como Meu nome é Maalum! (2021), Maréu (2023), Loop (2020), Vellozia (2024), E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas (2022) e Bola de Trapos (2017).

“Ela parecia comigo. O cabelo, a cor, até o nome diferente”, disse Milena, 9 anos, sobre a protagonista do curta Maalum!, que narra a descoberta de uma menina negra sobre a força do próprio nome por meio da ancestralidade. “Mas ela ficou feliz com o nome dela. Eu também gosto mais do meu agora.”

O filme Loop, da Disney, emocionou ao mostrar a convivência entre uma menina autista e um colega extrovertido em uma aventura de canoagem. Já Vellozia, animação sobre crianças do Cerrado que enfrentam queimadas e aprendem a restaurar o bioma, despertou reflexões sobre a relação das crianças com a natureza ao seu redor. “A gente também podia salvar o nosso lugar, né?”, comentou Ruan, 11 anos, depois da sessão.

A programação incluiu também sessões de leitura sensorial para bebês, realizadas no sábado (24) no Ponto de Cultura, além de contações de histórias em escolas públicas. Tecidos, aromas e objetos lúdicos foram utilizados para criar experiências acessíveis e sensoriais, conectadas ao universo da primeira infância. As atividades foram pensadas com foco na acessibilidade, com audiodescrição e tradução em Libras, garantindo a participação de crianças com deficiência.

“Nossos territórios têm riqueza de histórias orais e afetivas, mas o acesso ao audiovisual e à literatura ainda é limitado”, explica o produtor cultural e coordenador da ação, Ederlan Fábio. “A mostra se propôs a valorizar essas infâncias com afeto, escuta e representatividade.”

O impacto da mostra se refletiu nas falas simples, mas expressivas, das crianças. “A luz saía do aparelho e virava desenho na parede. Era mágica!”, descreveu Joaquim, 7 anos, encantado com sua primeira experiência de cinema.

Em um contexto onde o audiovisual ainda é privilégio urbano, a Mostra Cinemata revelou como iniciativas simples, como um datashow ligado em uma sala de aula ou salão comunitário, podem provocar grandes transformações. “Mais do que exibir filmes, a ação promoveu uma aproximação entre arte, memória e educação, com repercussões simbólicas e pedagógicas nas comunidades visitadas” acrescentou Fábio.

Salatiel Sícero

Jornalista por formação e assessor de imprensa.